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16/01/2019

Cenários 2019: O choque liberal e a crise externa

O ano de 2019 começa com um novo governo iniciando um choque liberal na economia conforme havia prometido durante a campanha.

As prováveis privatizações de dezenas de estatais, as novas direções do BNDES, BB, CEF, Petrobrás, o corte em cargos comissionados, a provável reforma da previdência (ainda que limitada), a racionalização de gastos, e a provável auditoria em folhas de pagamento animaram o mercado. Logo na segunda semana do ano a Bovespa passou dos 93 mil pontos quebrando seu recorde histórico.

Está muito claro que o governo recém empossado tem muitos cortes para fazer e muito espaço para melhorar as contas públicas e redirecionar a máquina estatal para pequenas e médias empresas que são as verdadeiras geradoras de emprego.

Com isto se pretende atacar dois dos maiores desafios do país que são o déficit fiscal (R$ 200 a 300 bilhões) e o desemprego (12 a 13 milhões de pessoas).

Por outro lado, o mercado externo está cheio de riscos. Cada vez mais indicadores apontam para o fato de que os EUA deverão entrar em recessão ainda em 2019. O crescimento chinês parece continuar sua redução. Deve haver um aprofundamento da guerra comercial entre EUA e China. O Brexit deve ocorrer ainda este ano. No Oriente Médio a guerra indireta entre Irã e Arábia Saudita pode gerar uma crise grave de petróleo a qualquer momento. Se alguns ou todos estes efeitos se confirmarem, a crise pode ser muito grave.

Fica claro para o leitor que o governo recém empossado no Brasil corre contra o tempo e que, dependendo da sequência dos eventos, o cenário resultante pode ser bem diferente.

Quando não temos clareza dos resultados a boa técnica nos recomenda a pensar em termos de cenários.

Analisando o cenário internacional dicotomizado entre crescimento econômico e uma crise (seja qual for sua natureza), e o choque liberal do Brasil dicotomizado entre reformas e estagnação, temos quatro cenários possíveis:

Vendedor de commodities – é o cenário atual onde nossa economia continua puxada pelo agronegócio e pelo minério. A economia global cresce lentamente e o Brasil não consegue emplacar as reformas na velocidade e escopo necessários.

Este cenário tende a não se manter por muito tempo, pois algum parâmetro (interno ou externo) deverá mudar. Entretanto este é um cenário ruim.

Tempestade – é um cenário onde, além do governo não conseguir emplacar as reformas na velocidade ou escopo necessários, o mercado externo entra em crise e o Brasil se vê envolto na mesma. Nem mesmo as commodities conseguem mais impedir que a economia brasileira entre em crise e o governo perde a popularidade. A vantagem é que numa crise muito aguda medidas realmente fortes se autojustificam, pois “tempos desesperados requerem medidas desesperadas”. No final este cenário tende a facilitar as reformas, ainda que com uma dor intensa.

Ilha da prosperidade – é o melhor cenário para o Brasil. Nele as reformas ocorrem com velocidade e escopo suficientes para fazerem do Brasil um “porto seguro” no meio de uma crise global. Os investimentos começam a fluir para nós e o País começa a se reindustrializar e adotar a nova onda de tecnologias.

Note que este é o cenário para onde o sistema tende a se deslocar.

Jogador Global – ocorre quando tudo dá certo, mas curiosamente não é o melhor cenário para o Brasil. Aqui as reformas ocorrem na velocidade e escopo desejados, novas tecnologias são adotadas, o país volta a se reindustrializar e, além disto, a economia global continua a crescer. Entretanto o Brasil é apenas mais um dos muitos países emergentes num jogo de competição global.

Este cenário também é instável pois o número de riscos externos na economia global é muito grande e no médio para longo prazo é provável que o sistema global entre em crise.

Cabe ainda fazer um exercício de estimativas de probabilidades, e de indicadores econômicos em cada cenário. Lembre-se que são apenas estimativas e não fruto de algum cálculo sofisticado e altamente confiável, são apenas balizas gerais. Lembre-se ainda que a situação é dinâmica e pode mudar dentro do mesmo ano, uma vez que claramente temos trilhas de migração.

Estimo que a chance maior na dimensão interna é a de as reformas não serem tão rápidas e vigorosas quanto o mercado espera e assim atribuo 60% da dimensão continuar no estagnado. Na dimensão internacional minha percepção é de que a maior probabilidade (60%) é de que uma crise se forme, em particular no segundo semestre. O leitor pode pensar em alterar tais probabilidades conforme achar mais apropriado, esta é uma das vantagens de um modelo aberto.

A questão central deste ano é a velocidade e a seqüência em que os eventos acontecerão.

Agilidade e liquidez podem ser decisivos num ano que promete muita emoção.

A incorporação das novas tecnologias que estão surgindo e atingindo a maturidade é a principal aposta de médio para longo prazo.

Mais uma vez a vantagem comparativa do Brasil se localizar numa região de baixo risco militar pode fazer muita diferença.


Fonte: Fundação Dom Cabral 



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